, :::::"É impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe" Epicteto - A minha cultura é de livros de bolso, mas tenho a sensibilidade de uma enciclopédia:::::

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Este blogue não é para se ler, mas para fazer uma pausa metódica e analítica na sua mais abrangente estrutura orgânica! - Nem mais uma palavra reflectida. Apenas se aceita a livre espontaneidade da loucura! - By Friedrich

 

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março 05, 2009


 

Entre o sonho e o real...




Estacionei, por escassos momentos em memórias descaídas no tempo, onde rasgo palavras perdidas entre silêncios eremíticos... E apercebo-mo da importância que as palavras vão formando como um vínculo a sensações inimagináveis que transformam os sonhos em emoções, como se as estivéssemos vivendo no preciso momento. A emoção não é mais do que a perturbação das sensações transmitidas pelo sistema nervoso, que, nos chegam ao cérebro e as descodificam para as sentir e definir os nossos sentimentos.

A escrita, consegue transmitir sensações a uma velocidade muito superior do que a própria oralidade da palavra; ela consegue fazer-nos imaginar cheiros, sons e paladar através dos nossos sentidos muito mais apurados numa sintonia perfeita da compreensão que transportamos da realidade para o nosso imaginário. Servimo-nos de todos os componentes que conhecemos e alteramo-los nos sonhos para satisfazer um prazer que ainda não tivemos e aspiramos a todo o momento para que ele se torne real. Por tal motivo, e não é por um mero acaso que, os sonhos são um dos maiores enigmas do homem. Numa conversação, focalizamos muito mais a audição na oralidade e dispersamo-nos mais dos nossos restantes sentidos. Ao invés dos sonhos que nunca nos servimos da audição, mas cujos restantes sentidos estão todos activados, e até, muito mais alertados e apurados, por não haver interferências exteriores. Logo não existe a desilusão. A desilusão só faz parte do real, nunca no imaginário do sonho, estejamos nós a dormir ou a sonhar acordado. O homem sonha e a obra nasce... Ou seja, hoje vivemos numa realidade que passou pelo sonho de alguém, dos quais, já não nos é permitido sonhar, mas pensar e vivê-los. E o pensamento requer silêncio absoluto para a meditação ou reflexão, para nos facilitar a tarefa de fazermos chegar o sonho à nossa realidade.

A vida é precisamente isso, um sonho constante. Sonhamos com o amor que ainda não se teve, regra geral todos sonhamos em querer paz e ser felizes, e transportamo-los para objectivos que queremos atingir. Sentir paixão em tudo aquilo que fazemos é essencial para o nosso equilíbrio e sentirmos satisfação. Em suma, vivemos em cima de sonhos para justificar a nossa própria vida no desejo de querermos alcançá-los realizá-los e sobretudo vivê-los. É precisamente, nestas circunstâncias, que eventualmente se sentirá surgir angústia o desânimo e o dolorosamente insuportável pelo fracasso. Os quais, nos deixam infeliz e sem objectivos. A coragem é fundamental, para avançarmos em direcção àquilo que desconhecemos e retirarmos daí as elações da vida que consigamos absorver e construir outros objectivos com satisfatória elevação.

Publicado por ® Friedrich | em  03:26 PM | Deixa a tua passagem: (1)

outubro 12, 2008


 

Não entrem em pânico

Tudo é passageiro até a morte…






A crise económica internacional estagnará no próximo ano. O FMI, garantiu que o crescimento económico no nosso país crescerá somente 1% no próximo ano. Mas, no entanto, o desemprego só aumentará, em resultado disso, umas míseras décimas, coisa de pouca monta… Talvez só umas dezenas de milhares é que ficarão sem o seu posto de trabalho… o que, dado a conjuntura económica internacional actual, apesar de sofrer uma enorme crise desde o pós-guerra… Até ser bem animadora. Pois o governo garantiu que as nossas poupanças serão sempre salvaguardadas, caso haja falências dos bancos…
Fiquei logo mais tranquilo por esta medida que o nosso sábio governo tomou… Pois, todos somos perfeitos conhecedores, que vivemos abastadamente e nem já sabemos o que fazer das nossas economias desde que este governo tomou posse. Conseguiu mesmo agarrar a crise pelos cornos. Ah valentes… E, se não estamos, muito melhor, não é culpa deles… coitados, que são uns mãos largas… Sempre foram, para eles, claro.

A verdadeira culpa é das crises provocadas pelas grandes multinacionais petrolíferas que controlam todo o mercado mundial, e da OPEP que não conseguiu controlar o aumento do preço do barril de petróleo que chegou a atingir o dobro do seu valor ainda bem recentemente, o qual em resultado disso abanou toda a economia mundial.

Assim, como a guerra do Golfo que não produziu os efeitos esperados para equilibrar a economia americana, antes bem pelo contrário, afectando-a gravemente e repercutindo-se ao resto dos países do mundo os seus efeitos nefastos da má estratégia geopolítica seguida pelos seus governantes, e muito em particular pela governação caótica de George Bush. Como não bastava isso, a Índia, mas sobretudo a China começou a tomar conta de toda a tecnologia mundial a preços imbatíveis e por inerência disso começou a absorver toda a economia mundial com os seus preços inigualáveis difíceis de combater devida ao baixo custo da mão de obra por eles praticado. O que logicamente, abanou toda a economia mundial, e fez mudar as regras do jogo de toda a economia até aqui reconhecida como sendo infalível.
Porém, a liberalização do capitalismo selvagem desenfreado provou que tinha perdido as rédeas no equilíbrio financeiro, o qual obrigou o G8 a tomar medidas e repensar em todos os métodos e em novas estratégias para salvar a crise mundial que a todos nós afecta. A Europa "UE" não ficou indiferente aos novos sintomas e aumentou sistematicamente as taxas de juro nos últimos meses para se salvaguardar da crise económica vigente, agravando assim ainda mais os nossos débeis recursos. Mas serão sempre afectados mais a uns do que a outros… Nós estaremos à frente desses mais «uns»… É nisso que de facto somos realmente bons. Mas, indiscutivelmente a maior crise abaterá indiscutivelmente sobre nós, pois somos “internacionalmentepseudodependentes”.
A ultima gota derramada desta crise que obrigou a repensar em toda a estratégia da presente conjuntura foi a falência de um dos maiores bancos mundiais o Lehman Brothers. Seguindo a crise financeira da maior seguradora mundial a American International Group Inc. Em tempos normais, as empresas ávidas por capital normalmente podem levantar dinheiro por conta própria. Na crise actual, um número grande de companhias incluindo o Citigroup Inc., recorreram aos fundos soberanos, os poços de dinheiro controlados pelos governos. E as cotações da bolsa de Wall Street de Nova Iorque, entraram em colapso afectando toda a economia mundial.

Cito: “Esta tem sido a pior crise financeira desde a Grande Depressão. Não há dúvida a respeito disso”, disse Mark Gertler, um economista da Universidade de Nova Iorque que com o companheiro académico Bem Bernanke, agora presidente do Federal Reserve, para explicar como o turbilhão financeiro pode infectar a economia global. “Mas ao mesmo tempo temos os mecanismos políticos no lugar para combatê-la, o que é algo que não tínhamos durante a Grande Depressão”.

Por tal facto, animemo-nos! Não é nada que uns bons antidepressivos não resolvam...

Mas em todo o caso, e felizmente, nós, por cá todos bem… Nem sequer temos sentido essa crise tão badalada. Mas nunca fiando! Porque o Sócrates pode sofrer uma recaída, e depois não há antibióticos nem antidepressivos que nos valha e lá se vão os 150000 mil postos de trabalho que ele tão carinhosamente criou com o seu inquestionável saber de grande homem de estado que é…
Por esse facto, empenhem-se afincadamente no trabalho com profissionalismo, não reclamem dos vossos baixos salários e riem-se sempre para quem vos garante o vencimento ao fim do mês, e o qual trazem para casa mediante imenso esforço. Afim do patronato os reconhecer como sendo insubstituíveis e não prescindir das vossas qualificações não rescindindo assim, o vosso contrato, antes do tempo de atingirem a reforma. Isto, se lá se conseguir chegar…

Desta feita, e depois de meditar bastante nesta situação, ponderei muito e cheguei à conclusão da melhor estratégia para nossa salvaguarda. Primeiro de tudo, abandonem o vosso veículo automóvel na garagem. E utilizem mais os transportes públicos, além de fazer bem à saúde alivia-vos mais a carteira. Para aqueles de economias mais abastadas, façam um pequeno sacrifício e comprem uma bicicleta para cada membro da família. Além de reduzirmos a poluição do nosso meio ambiente, não precisaremos de ir tantas vezes ao ginásio para manter a forma.
Economizem o mais que possam, reduzam as despesas supérfluas, como ir de férias pra fora podendo muito bem ficar cá dentro. Pois sempre são saídas de divisas que nunca mais voltam e empobrecesse cada vez mais o país.
Deixem de comprar nas lojas de conveniência tipo chineses e afins, pode ser mais barato, mas são uma autêntica merda. Optem sempre pelos produtos nacionais, e se não houver, juntem-se todos, e façam cooperativas a fim de montar fábricas para que as possamos utilizar fabricando-as e sempre é made in Portugal, assim como nunca desmoralizemos, acreditando que podemos sempre fazer melhor.

Por último, deixem de comer peixe e carne, façam saladas, uma boa açorda alentejana e comam muita fruta, e não se esqueçam bebem só água - pelo menos 1,5lt por dia ( mas água mesmo, não é água ardente, nem bagaço, embora a cor nos confundam às vezes ) - apesar de ainda não se contemplar os ciclistas no sopro do balão… E aqueles mais agarrados ao vicio pela alcoolemia, tendo já mais álcool no sangue em vez de sangue no álcool, e insistirem em apanhar grandes bebedeiras, garantidamente que não matarão ninguém por baterem com os cornos no chão…

Conselho de um homem que um dia se apaixonou pelo amor. Um conselheiro ao vosso dispor, que apesar dos seus fracos recursos económicos, mas que sabe, que viver não custa nada… O que custa, é de facto saber viver. E quem não tem cão, caça com gato…Sempre é mais barato!






A bem da Nação!

Mas, principalmente para bem dos seus filhos órfãos…E agora, vamos lá todos dançar, para animar a malta:


Publicado por ® Friedrich | em  02:25 PM | Deixa a tua passagem: (2)

outubro 04, 2008


 

S.O.S.




A mais longa noite da minha vida.

Acordei de forma abrupta. Mas não sentia forças no corpo para levantar o esqueleto que se encontrava estático e quieto, estiraçado ali no vazio da cama, como se estivesse cozido ou até colado com ela. Até parecia daquele género de cola, que cola cientistas ao tecto e ficam suspensos como morcegos de cabeça para baixo para sentir a mocada do sangue ainda maior, a irrigar as veias do cérebro onde mora a consciência, do prazer, das emoções e dor; no meu caso.

Apercebi-me momentaneamente, que algo de anormal se passava comigo e, não estava nos conformes, além de que a cabeça não reagia aos pensamentos que me iam assaltando de rompão… Será que estou a adivinhar alguma gripe??? Diagnóstico rápido da ignorância…

A habitual erecção matinal, não se tinha manifestado, fora aí, que tomei plena consciência que não estaria nada bem… E não seria unicamente fruto da mais pura preguiça de que às vezes sou atacado. Mas não, por que a preguiça sabe sempre bem, e eu estava me sentindo naquele momento, bem mal, estava mesmo uma lástima…

Porra!.. Ainda agora começou o Outono e já vou ficar com gripe. Pensei. Será que apanhei sol a mais nos cornos … Isto não augura nada de bom, não… Uma vez que o meu organismo resiste sempre bem às mudanças bruscas de temperatura, e, nada de grave me acontece, porque regra geral lhe faço sempre frente com umas boas bejecas ou um bom vinho tinto alentejano, e, em último caso, emborco com um daqueles shots B-52 que até nos fazem levantar os pés do chão. É certinho! Não há gripe que lhe resista.
Nessa primeira tentativa de me querer levantar da cama, como habitualmente faço… foi infrutífera, mesmo frustrada, pois o corpo não queria reagir, mesmo nada, a esse meu primeiro impulso. Numa segunda tentativa, coloco-me de lado e arrasto o corpo até à beira da cama e lá consegui sair muito a custo, com as pernas todas a tremer, que, mais pareciam varas verdes dobradas pela força do vento… Senti uns suores frios na fronte, acompanhado dumas tonturas, até parecia que estava a ressacar de uma valente bebedeira do dia anterior. Coisa rara, senão inédita. A tensão arterial tinha caído a pique, deveria estar, quase, com a tensão arterial igual à de um passarinho. O que não estranhei de imediato, por já ser habitual sentir estas quebras repentinas, embora não com esta violência brusca da qual me assustou verdadeiramente.
Caminho meio cambaleante em direcção à c.banho com o fim de tomar o meu banho, e ver se com ele arrebitava um pouco mais, mas antes disso, pelo sim pelo não, emborquei duas aspirinas no buxo. Senti-me bem melhor depois daquele reconfortante banho. Vesti-me e sai… só queria naquele momento beber um café para a tensão estabilizar. E não acendi nenhum cigarro depois, não fosse ele estragar o que se estava lentamente a recompor-se… Julgava eu.

Isto era sexta-feira. E tinha de me deslocar durante a tarde ao centro da cidade a fim de comprar uma catrefada de material escolar para os putos iniciarem a sua actividade empresarial… Ainda não me sentia bem, mas lá fui resistindo, até perder totalmente as forças, obrigando-me a ter de me sentar no meio da relva do parque, para poder descansar, o qual atravessava na altura a caminho de casa já com as compras feitas. A minha mulher olha para mim com cara de caso, pois apercebeu-se de facto que eu não estaria nada bem. Estás bonito, estás… diz-me ela. Eu mal reagi à sua preocupada reacção tal era o estado do meu cansaço. Nesse dia, nada mais fizera a não ser descansar…
Sábado, ao acordar, as dores no corpo eram mesmo medonhas, mas no entanto não me tinham afectado as forças como no dia anterior. Tomei novamente duas aspirinas para aliviar as dores. E, durante o dia, ainda andei por aqui a navegar, mas sem grande entusiasmo. Ainda cheguei a conversar com uma amiga minha através do Google talk a relatar-lhe sumariamente o meu estado, ao qual mediante o meu relato, ela me aconselhou a dirigir-me ao médico urgentemente. A partir deste dia não mais voltei a abrir o computador. Mas não fui de imediato ao médico, é uma mania minha, que penso, tudo hei-de resolver sem ser necessário ir logo por aí.

O ponto da viragem deu-se no domingo, pois acordei sem dores e sem me sentir cansado. Mas em contrapartida, estava carregado de febre, mais propriamente, depois de a verificar, ultrapassava umas décimas dos 39 graus. Porra!!! Estava mesmo doente, só ainda não sabia do quê. A partir deste dia deixei de comer, só o cheiro da comida causava-me náuseas… Mantive-me deitado durante todo o dia para reservar as forças cujas energias ainda me restavam. Mas efectivamente a complicação deu-se no dia seguinte, pois além de não sentir qualquer cansaço, a febre mantinha-se acrescida de tremendas dores na zona anal. Julguei tratar-se de alguma trombose hemorroidal, não por experiencia própria, mas tinha conhecimento através de familiares que tinham já passado por situações idênticas; e nesta teimosa tentativa em querer diagnosticar-me sugeri à minha mulher que se deslocasse à farmácia mais próxima com o fim de comprar qualquer medicamento para atenuar as dores. Mas dado a minha mulher, ser muito mais precavida do que eu, não embarcou no meu pedido sem antes se aconselhar com o farmacêutico relatando-lhe os meus sintomas, ao qual ele afirmou que não deveria ser nenhuma crise hemorroidal, porque essas crises nunca dão febre.

Quarta-feira à noite, por volta das 23h00 pedi à minha mulher para telefonar para INEM que me levou de urgência para o hospital, pois não suportava mais aquelas dores. Ainda cheguei a comer uma canja antes de ir, pois não tinha ingerido nada até então, e o estômago roncava com falta de combustível, pois só tinha bebido água desde há três dias, como único alimento. Desci as escadas pelo meu pé, devagar e muito a custo, quando a ambulância chegou.
Naquele momento só sentia dores e sono, queria simplesmente dormir, pois já não dormia convenientemente, quase há trinta horas quando dei entrada nas urgências do hospital. Após dar entrada no hospital, dirigiram-me para a triagem a fim de avaliarem a situação, quando me transmitem que ficaria internado. Mas, que ainda teria de aguardar na sala de espera até que chamassem pelo meu nome… A sala estava abarrotar de gente, cadeiras vagas não havia, e mesmo que houvesse, não conseguia sentar-me e as forças eram nenhumas para me manter em pé. Estive mesmo quase a deitar-me no meio do chão, mas não queria fazer figuras tristes mais do que aquela que já me sentia. Voltei à triagem comunicando à respectiva médica que não aguentava estar em pé e me arranjasse um sítio onde me pudesse deitar. Ela mediante o semblante de dor e sofrimento que eu deixava transparecer, foi extremamente simpática e atenciosa e encaminhou-me de seguida para o médico das urgências. O médico diagnosticou-me um abcesso perianal … (Não sabes o que é? Eu também não sabia o que era, mas fiquei a saber bem demais pelas dores horríveis que me provocou…), e que teria de ser operado urgentemente. Mandou-me despir e a enfermeira colocou-me um babete tipo gigante. E começou a picar-me as veias da mão direita para receber soro e algo mais, para aliviar as dores. Também pedi ao médico, na minha impaciência que me ingerisse qualquer medicamento que me fizesse dormir. O médico entretanto, perguntou-me se tinha comido alguma coisa ultimamente, ao qual lhe respondi que tinha unicamente ingerido uma canja antes de me deslocar ao hospital. E continuou dizendo-me que seria operado só por volta das oito horas porque teria de estar em jejum.

Nunca tinha ficado internado num hospital, não sabia o que isso era… Era esta mesmo a minha primeira vez.
Eram cerca da uma hora da madrugada, quando a minha mulher se despede de mim, por já não a deixarem ficar ali por mais tempo. Fiquei entregue à desgraça e completamente sozinho envolvido entre a dor e o sofrimento de dezenas de camas improvisadas, com todos aqueles doentes espalhados no corredor das urgências aguardando melhor sorte. Esta, é talvez uma das sensações mais desconfortáveis que existe. Não só pela nossa própria dor que na altura sentimos como pelo sofrimento, que, mesmo inconscientemente observamos ao nosso redor. Foi a mais longa noite da minha vida.

Mas no entanto, neste meu peculiar optimismo que nunca me abandona, mesmo nesta altura estranha e algo debilitado no qual atravessava este episódio imprevisível da minha vida. Ainda consegui rir com o praguejo de alguns doentes em altos gritos proferindo as coisas mais disparatadas. Possivelmente, por sentir-me um pouco mais aliviado devido ao efeito da medicamentação que ia ingerindo por meio endovenosa fruto da qual me mantinha desperto e ainda plenamente consciente. Dormir, que, era o que mais desejava naquele momento é que, continuava sem o conseguir - Uma anciã levou toda a noite a gritar; tirem-me isto do cu, ai tirem isto do cu; outro perto de mim, gritava pelo pai e pela mãe e já deveria ter uns setenta anos. Havia outro que delirava e pedia à enfermeira constantemente que lhe retirassem dali o cão. Ela respondia: ó amor não está aqui nenhum cão, sossegue, vá lá, que o cão não lhe vai morder. À outra que gritava para que lhe retirassem qualquer coisa que ela julgava ter no cu; Ó querida, mas você não tem ai nada, vá cale-se lá, que já ninguém a pode ouvir.
Enfim, teremos sempre que retirar algo positivo no meio de qualquer desgraça para não nos impedir de seguir em frente numa sobrevivente deresistência posta a toda a prova.
Sentimo-nos extremamente pequeninos e completamente indefesos nestas alturas. Estamos à mercê da generosidade das pessoas que abraçaram, um dia, esta carreira nas técnicas de saúde que nos acompanham nas horas de maior infortúnio com um profissionalismo louvável e muito gratificante pela sua plena entrega à profissão. Passei a olhar com outros olhos, estas magníficas pessoas, muito especialmente a classe das enfermeiras que são incasáveis no seu relacionamento com os enfermos. Onde não falta nunca, uma palavra meiga e carinhosa, mas sobretudo, muito encorajadoras a ajudar-nos a suportar a dor. Talvez tenha sido eu, que no meio disto tudo, ainda tivesse tido a sorte de me calhar as melhores pessoas envolvidas e que me trataram com o melhor de si mesmas. Se existem profissões nobres, esta é uma delas seguramente.

Enquanto me mantinha ali deitado naquele corredor sem o mínimo conforto, a não ser o calor humano das enfermeiras. As minhas ideias afloravam os piores cenários possíveis que me aguardavam a poucas horas de distância da intervenção cirúrgica que, iria sujeitar-me, e que dela desconhecia totalmente as suas implicações futuras.
Entre estas minhas congeminações, senti uma enorme vontade de urinar, e não sabia o que havia de fazer para o conseguir, e, ia-me aguentando até ao limite para não incomodar ninguém, pois havia ali pessoas em situações bem mais graves do que a minha, e necessitavam transigentemente dos cuidados das enfermeiras que não tinham mãos a medir naquele, lufa-lufa. Mas não resisti ao ver passar uma enfermeira junto a mim, e estiquei-lhe o braço em tom de súplica. Disse-lhe que estava aflito para fazer xixi, ao qual ela respondeu com um sorriso que me trazia já o copo… Copo? Pensei eu… Que copo? E lá aparece ela passado pouco tempo, e entrega-me uma garrafa de plástico de tampa azul própria para o efeito… Olhei para aquele objecto estranho, e perguntei-lhe como fazia, ela riu-se e responde-me: ó amor, então, como queres é que isso seja feito? Enfias ai a pilinha e fazes, prontus… Era a enfermeira Márcia, ainda bem novinha, não teria mais de trinta anos e muito simpática. O meu riso soltou-se, algo amarelo pela minha pergunta disparatada. Ela riu-se também… E lá fiz, ali deitado o meu xixizinho tipo conta gotas. É um desconforto confrangedor as limitações das nossas capacidades nestas alturas. Como o simples acto de urinar se torna de extrema importância ao aliviar as águas condignamente… O que não sucedeu neste caso.

Mas como este meu embaraço ainda não seria suficiente debilitante, assim como os músculos da zona do recto estavam debilitados, com um inchaço descomunal, pois não conseguia controlar os gazes… os quais me fazia sentir, uma enorme vergonha quando os soltava, mesmo quando ninguém estivesse por perto. E nisto, sinto o rabo todo molhado, vai daí, julguei que me tinha borrado todo, apesar de ter consciência que não poderia ser um grande estrago uma vez que não comia há vários dias… Mas mesmo assim, nem sequer me atrevia a verificar e fiquei ali sossegadinho o máximo de tempo que aguentei. Mas como era demasiado desconfortável sentir aquilo, passado quase meia hora, encho-me de coragem e chamo a enfermeira Márcia – Olhe enfermeira, desculpe, mas acho que me sujei todo proferindo isto meio envergonhado… Vamos lá ver isso então, diz ela prontamente. Era a segunda pessoa naquele dia que me via o rabo. Ela sorri-me nos olhos, e diz: não meu querido, está sujo sim, mas não é o que julga ser; o que lhe aconteceu e que o inchaço abriu uma fistula, rebentou e o molhado que sente, é só vurmo (pus) nada mais… Vamos já tratar disso, amor. Limpou-me, e ainda tentou ajudar a sair mais porcaria, mas as dores eram demais insuportáveis e desistiu de continuar a torturar-me, o que, eu agradeci com um sorriso. Mais pelo facto de não ser o que julgava ter sido do que por outra qualquer razão. A partir dali tinha arranjado uma amiga, pois brincou com os pêlos das minhas pernas puxando-os e dizendo graçolas para me animar. E, sempre que passava por mim, fazia-me cócegas na planta dos pés. Dado estar sempre de pernas destapadas por causa dos calores que sentia, apesar de estar mesmo por debaixo do aparelho do ar condicionado do qual todos os restantes se queixavam do frio que fazia. Eu, só tinha calor, e já não sentia as mesmas dores. Acabei por adormecer, não sei quanto tempo, mas não muito… pois a noite não havia meio de chegar ao fim.

Estava sentado, numa cadeira da primeira fila de qualquer teatro. Ao meu lado, também sentado, estava alguém que não reconhecia nem sei quem era, mas, que me sorria… E vi-me deitado numa mesa situada no centro do palco cheio de luzes e como cenário representado, o bloco operatório. Acordei nesse momento, todo transpirado… Já não consegui dormir mais a partir dali. Foi quando senti MEDO pela primeira vez.

Só por volta das 13h00 venho a conhecer a médica cirurgiã, que se apresentou dizendo que era ela quem iria operar-me. E, em seguida, transporta-me para uma sala a fim de fazer-me um TAC. Era uma médica ainda muito nova, não soube precisar bem a sua idade, nem as suas feições naquela altura. Só fixei o seu nome ao apresentar-se: Drª Cristina Maia. Era simpática e transmitiu-me alguma confiança neste nosso primeiro contacto, o que me tranquilizou. Às 14h30 foi quando me levaram para ao bloco operatório para consumarem a intervenção. Mas antes disso, passei pela sala de esterilização onde mudei de roupa e me deram um banho turco. Estava calmo, demasiadamente calmo. Não sei se seria por só haver ali mulheres… As mulheres sempre me transmitiu tranquilidade.
Todas elas na risada como se aquilo fosse o resultado duma festa que se iniciava. Acabei também por me rir com elas levado pelo seu contágio. A médica anestesista, era a mais galhofeira, senhora perto dos sessenta anos já habituada a ver muitos cuses, e não parava de brincar com toda aquela situação. Vá menino agora vai estar quietinho e nada de pieguices, dizia ela enquanto procurava o sitio exacto da tortura para a analgesia epidural. Aiiiiiii, aiiiiiiii! Digo eu pra mim, puxa aquela merda dói mesmo.
Estou aflito para fazer xixi, mas já não consigo fazer e tenho a bexiga cheia, disse-lhe. Ao qual ela respondeu que tratava já dessa situação quando a anestesia fizesse efeito. Resultado, enfiaram uma algália pele uretra, apesar de nada sentir constato que a bexiga se tinha esvaziado como se de magia se tratasse.
Ai estes homens que são todos iguais, e mediante isto, dei uma valente gargalhada. E elas comigo… Ao qual respondo; há uns mais iguais do que outros… Não será? Ah… afinal esta anestesia é mesmo boa, não afectou a consciência do raio homem… Sim senhor! Portou-se muito bem sim, se era isso que queria saber…

A Drª Cristina Maia, ainda não se encontrava no bloco, e nem sequer cheguei a vê-la, porque entretanto, colocaram um lençol na minha frente, suspenso e preso por umas pinças e o qual me impedia de ver-me da cintura para baixo e, nem ninguém que se encontrasse para lá dele. Ainda por cima, estava deitado na marquesa com as pernas abertas viradas pró tecto formando uma diagonal. Lá se iniciar a tortura… Só sentia metade do meu corpo, algum nervosismo também. E naquele momento, toda a gente se tinha silenciado, ou falavam muito baixinho, não conseguia ouvir nada do que diziam. Era quase um sinal sussurrado, daquilo que estavam a fazer-me, divertidas, como se quisessem vingar-se de alguns homens fazendo-me sofrer. Ainda bem que nada sentia… É que uma mulher só, poderá ser um encanto e fazer maravilhas, mas em grupo, podem-se tornar numas autênticas feras. Felizmente, senti que a sorte me tinha bafejado, pois trataram-me todas elas, com algum mimo… Sempre acreditei que era um homem com a alguma sorte, só nunca tinha medido a sua intensidade dessa afortuna, como hoje… Correu tudo bem.

Entretanto, levaram-me do bloco operatório para enfermaria de três camas situada do 4º piso designado por cirurgia I. As duas camas das pontas estavam ocupadas, por dois indivíduos, um 75 e o outro de 68 anos, eu fiquei na cama do meio. Eram dois homens divertidos que, depois ficámos amigos. Um era o Januário, que tinha também a mulher internada no 6º piso, o outro, o João Augusto. Até nisto, tive alguma sorte, pois nenhum deles berrava como nas outras enfermarias do piso, os quais, quase não deixavam dormir ninguém.
A única coisa que sentia naquela altura, era uma sede dos diabos, mas não podia beber nada enquanto ainda estivesse com o efeito da anestesia, o que só aconteceu por volta das 18h00. Estranhei pelo facto da minha cama ser mais alta do que as outras, só depois percebi, que afinal, era porque tinha dois colchões a fim de causar o mínimo de incomodo. Tudo tinha sido planeado ao pormenor a pensar no meu ânus, pois a única posição possível era deitado de costas, e o penso ocupava-me toda a zona das nádegas. E foi aí que dei conta, depois de levar a mão ao pénis que ele estava como o dobro da grossura… eh lá, querem ver que enganaram-se e fizeram também um enxerto para aumentar o volume… Lembrei-me depois que era da antena, ops… isto é, da algália. Foi esta a primeira noite que dormi razoavelmente bem, ao fim de, não sei quantas horas.
O penso era mudado regularmente, pois sempre que tinha de ir à casa de banho era retirado, mas só o primeiro é que causou dor, porque me arrancou os pelos todos do rabo. E sempre que a enfermeira vinha, dava-lhes sempre vontade de rir e brincavam com toda aquele panorama. No dia seguinte, ou seja, quinta-feira, aparece a enfermeira Márcia, estava de turno naquele piso. Olhou para mim a sorrir, perguntando ao mesmo tempo como é que eu me sentia… O que é que acha?... Estou nas suas mãos não é verdade… Digo-lhe eu. Vá vire-se lá para lhe mudar o penso, que isto já mais parece um namoro, e desatamos a rir. Ó… ficaria mal servida comigo neste estado e você merece muito melhor. Mas que simpático, isso quase me parece um piropo. É? Se você quiser pode ser, sim… Pois merece-o bem pela sua santa paciência.
Quantos pontos, é que eu levei? Perguntei. Que pontos?..diz ela – não meu querido, não há pontos nenhuns, você não foi aberto, mas sim espremido através de um dreno. Ah não? Ahahah julgava… E, naquela altura, só sei… que fiquei extremamente feliz.

Deram-me alta no sábado, entre umas quantas peripécias engraçadas pelo meio, até lá… Mas dado já se tornar um pouco repetitivo, acrescento apenas que na próxima quarta-feira terei uma consulta de rotina com a Drª Cristina Maia para ver se está tudo bem. Hoje, neste preciso momento, foi o meu melhor dia. Outra situação não menos boa é pelo facto de ter deixado de fumar vai para quinze dias.

Neste momento, no qual fui descrevendo e recordando esta passagem fresca e recente, até parece que foi uma miragem e da qual não passou de um simples pesadelo. Mas infelizmente, não deixando ser de facto um pesadelo, vivi-o plenamente acordado e jamais o irei esquecer. E creio que, fez-me crescer um pouco mais, e até, a ser mais atento ao encarar melhor as coisas simples da vida. Foi como o trepar de mais um degrau importante na forma como passei a encarar esta vida. A única que tenho.


Os meus sinceros agradecimentos a toda a excelente equipa médica do Hospital Garcia de Orta que cuidou da minha breve estadia. Muito especialmente às enfermeiras; Márcia, Marisa e Fátima e também ao enfermeiro que me acompanhou na segunda noite, mas que infelizmente não cheguei a saber a sua graça, pois ainda andava à nora. É bom saber que há alguém que sabe cuidar de nós nestas mofinas ocasiões que, porventura nos acontecem, com eficiência e profissionalismo sem nunca descorar o aspecto não menos importante: O calor humano!


BEM-HAJA


A partir deste dia, resolvi nunca mais voltar a fazer autodiagnósticos ignorantes, por que com a saúde, de facto, não se deve mesmo brincar.

Publicado por ® Friedrich | em  03:12 AM | Deixa a tua passagem: (4)
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